Você olha para um Border Collie correndo no parque, fazendo comandos, pegando uma bolinha ou um frisbee e pensa: “Eu queria muito ter um desses”.
Só que existe uma parte dessa raça que nem sempre aparece nas fotos.
O Border Collie não é simplesmente um cachorro “inteligente” que aprende comandos rápido. Ele foi desenvolvido para trabalhar, tomar decisões e passar boa parte do dia em atividade. Por isso, algumas pessoas acabam se apaixonando pela aparência e pela inteligência da raça, mas descobrem depois que a rotina necessária é bem maior do que imaginavam.
Antes de comprar ou adotar um Border Collie, vale olhar para a sua rotina e não apenas para o cachorro.
Você passa muitas horas fora de casa?
Esse é um dos primeiros pontos para pensar.
Se você trabalha fora o dia inteiro, sai de casa cedo e só volta à noite, a rotina pode ficar complicada para um Border Collie, principalmente se ele passar grande parte do dia sem atividade.
Isso não significa que um Border Collie nunca possa ficar algumas horas sozinho. O problema é quando praticamente toda a rotina dele é ficar sozinho, dormir e esperar o dono voltar.
Quando chega a noite, ele ainda pode estar cheio de energia.
E aí aparecem situações que muitos tutores interpretam como “meu cachorro é hiperativo”: correr pela casa, pegar objetos, pedir atenção o tempo todo, destruir coisas ou simplesmente não conseguir relaxar.
A necessidade da raça não é apenas correr. Border Collies também precisam usar a cabeça. Treino, brincadeiras de busca, comandos novos, jogos de farejar e atividades que façam o cachorro pensar podem fazer parte da rotina. A própria AKC destaca que a raça precisa de exercício físico e estímulo mental regulares.
“Mas eu tenho quintal”
Ter espaço ajuda, mas não resolve tudo.
Um quintal grande não substitui automaticamente passeio, interação e treinamento.
É bastante comum imaginar que basta deixar o Border Collie solto para ele correr sozinho. Depois de alguns dias, porém, o cachorro pode simplesmente começar a procurar outra coisa para fazer.
E ele pode encontrar.
Cavar, perseguir tudo que se movimenta, latir para pessoas na rua, correr atrás de bicicletas ou tentar controlar outros animais são algumas das maneiras pelas quais um cachorro com muita energia e pouco direcionamento pode ocupar o próprio tempo.
Para um Border Collie, espaço é uma vantagem. Não é uma solução completa.
Você quer um cachorro que fique tranquilo no sofá?
Aqui está uma diferença importante.
Existem cães que gostam de brincar, passear e depois passam boa parte do dia descansando. O Border Collie pode aprender a relaxar, mas isso também precisa fazer parte da educação dele.
Não é saudável pensar que o cachorro precisa ficar correndo o dia inteiro.
Na verdade, a rotina ideal não é simplesmente “cansar o cachorro até ele apagar”. É oferecer atividade física, treinamento e momentos de descanso bem definidos.
Um passeio tranquilo, uma sessão curta de comandos, uma brincadeira de buscar e depois um período de descanso podem ser muito mais úteis do que tentar fazer o cão correr sem parar.
Você gosta de ensinar coisas ao cachorro?
Se a resposta for sim, o cenário muda bastante.
Border Collies costumam aprender rapidamente e podem gostar muito de treinamento. Obediência, agility, brincadeiras com comandos, busca de objetos e atividades de farejamento são algumas possibilidades.
O problema é que essa facilidade para aprender também pode trabalhar contra o tutor.
Um cachorro que aprende rápido também pode aprender rapidamente aquilo que você não queria ensinar.
Se toda vez que ele late você dá atenção, ele percebe. Se correr pela casa faz você brincar com ele, ele percebe. Se pular nas pessoas funciona para conseguir interação, ele percebe.
Por isso, consistência é importante.
Não adianta permitir determinado comportamento durante a semana e tentar corrigir no fim de semana.
E quem mora em apartamento?
Muita gente acredita que Border Collie e apartamento não combinam de jeito nenhum.
A questão é um pouco mais complicada.
O tamanho do imóvel não é o único fator. Um apartamento pode funcionar para um Border Collie se o tutor realmente conseguir oferecer uma rotina adequada de atividade, treinamento e descanso.
Por outro lado, uma casa enorme pode não funcionar se o cachorro passa o dia sozinho e praticamente não recebe estímulo.
Para quem mora em apartamento, existe ainda uma preocupação prática: não basta pensar em “gastar energia”. É preciso ensinar o cachorro a ficar tranquilo dentro de casa.
Isso inclui aprender a descansar, não reagir a todos os barulhos do corredor, não correr pela casa o tempo inteiro e conseguir ficar sozinho por períodos adequados.
E no calor do Brasil?
Esse ponto merece atenção especial.
O Border Collie tem pelagem dupla e, durante o verão, o tutor pode perceber uma quantidade enorme de pelos pela casa. Isso pode dar a impressão de que o cachorro está “sofrendo por causa do pelo”.
Mas raspar o cachorro não é a solução.
A pelagem dupla também participa da proteção da pele e da regulação da temperatura. O Border Collie está entre as raças de pelagem dupla citadas pela AKC, e a recomendação geral é manter a pelagem bem cuidada em vez de raspá-la.
No verão, o mais importante é ajustar a rotina.
Passeios muito intensos podem ser feitos nos horários mais frescos. Água fresca deve estar sempre disponível e o cachorro precisa ter acesso a um local protegido do sol.
E existe uma diferença importante entre “ter energia” e “poder fazer exercício no calor”.
Mesmo um Border Collie acostumado a correr pode superaquecer durante atividades intensas em dias muito quentes.
Quem costuma ter mais dificuldade com um Border Collie?
Alguns perfis precisam pensar duas vezes antes de escolher a raça:
- Quem fica fora de casa durante grande parte do dia e não consegue organizar atividades para o cachorro.
- Quem procura um cachorro que exija pouca interação.
- Quem não tem disposição para treinar.
- Quem acredita que um quintal grande resolve a necessidade de atividade.
- Quem não gosta de lidar com pelos e escovação.
- Quem quer um cachorro que faça exercício apenas com um passeio curto.
- Quem não tem paciência para trabalhar comportamentos desde cedo.
Isso não significa que essas pessoas sejam “donas ruins”. Significa apenas que a rotina delas pode não combinar com as necessidades da raça.
Então, quem pode se dar bem com um Border Collie?
Não precisa ser atleta, ter uma fazenda ou passar o dia inteiro no parque.
Mas precisa estar disposto a incluir o cachorro na rotina.
Pode ser alguém que gosta de caminhar, correr, brincar de frisbee, ensinar truques, fazer treinamento ou simplesmente dedicar todos os dias um tempo de qualidade para atividades físicas e mentais.
Também é importante entender que um filhote não vai automaticamente saber controlar toda essa energia. Socialização, treinamento e limites começam cedo e continuam ao longo da vida.
O Border Collie pode ser um companheiro incrível para a pessoa certa. Mas justamente por ser tão ativo, inteligente e interessado em tudo ao redor, ele pode se tornar uma escolha complicada para quem procura apenas um cachorro bonito e fácil de cuidar.
Antes de perguntar “Border Collie é uma boa raça?”, talvez a pergunta mais útil seja:
“Eu consigo oferecer a rotina que um Border Collie precisa todos os dias?”
Se a resposta for sim, aí a história começa a ficar muito mais interessante.